your lower mind's voice

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

— Edson Marques

“Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembranças que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um considerável número dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente.”

– Fiodór Dostoievski, em Memórias do Subsolo

Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive.
[Clarice Lispector]

7:30 AM e o celular toca “chinatown”. o maxilar comprime os dentes, fazendo-os ranger. o corpo sente as consequências de uma noite em que minha mente ficou a mil, e as poucas horas que eu tinha de descanso, não foram suficientes. no banho, a água quente do chuveiro cai sobre minha cabeça e me dou conta de que estive ali, parado, por uns 5 minutos. a mente continua a mil. em são paulo não há tempo a perder. saio de casa às pressas pensando no engarrafamento da raposo tavares, e no que vou dizer à minha chefe, caso eu chegue atrasado. comigo, sempre um fone de ouvido pra colocar e tentar me desprender daquele momento tenso. funciona. no meio do caminho a música é interrompida por uma ligação: é a minha mãe me desejando bom dia. pergunto se o dvd da partimpim, presente de aniversário que enviei à minha irmã, chegou. sim, chegou. e naquela noite ela dormiu abraçada com ele. o peito aperta ao saber disso. estou perdendo uma fase dela que não volta mais. a ligação se encerra e a música volta a tocar bem no momento em que o ônibus passa em uma ponte sobre a marginal pinheiros. a visão da cidade é ampla. prédios, carros, multidão. “não era isso que você queria?”, são paulo me pergunta. sim, era. então engulo seco e aceito as consequências.

Dois dias sozinho dentro de casa, sem sair. Bateu saudade e a solitude estava começando a dar lugar à solidão. Fui na sacada e olhei aquele horizonte de luzes e prédios. Me percebi rodeado de concretos, mas também de corações e almas. Vida! E como tem vida por aqui… Pulsando a toda hora, a todo momento. Percebi que faço parte disso e isso sempre fez parte de mim. Me atraindo como um imã. Um lugar que tem tudo em demasia. Coisas boas e ruins. Mas nada do que é pouco me satisfaz. Então eu pago o preço. Pago pra ver, São Paulo!

Decidi dar um tempo pra mim. Dar um tempo pra mastigar, com calma, no café da manhã. De não me preocupar com horário de ônibus, e nem com os 15 minutos de tolerância que tenho pra chegar após o horário determinado no trabalho. Mais que isso, decidir dar um tempo do “horário comercial” e pedir demissão. Fui a uma daquelas redes de supermercados e comprei um punhado de meias, cuecas e camisetas. Todas brancas. Que é pra andar na rua sentido menos calor, menos estresse e mais calmo. Roupas brancas, sim, me deixam mais tranquilo. Decidi deitar na cama, colocar um bom fone de ouvido e escutar os discos que eu tinha baixado há tempos, mas que não tinha percebido o quanto eram bons. Decidi ler o livro que tinha ganhado e parei pela metade. Decidi ligar pra aquela pessoa que eu gosto tanto e passar um longo tempo falando de tudo, que eu não falaria pra mais ninguém. E me surpreender percebendo que mesmo naquele momento, depois de tanto falar, em que ficamos calados na linha, a gente se compreende. Decidi dar valor a minha vó e escutar a voz trêmula dela de emoção ao telefone depois de dizer que eu a amo, e perceber que eu tenho medo e o coração dói quando penso que não mais a terei em um futuro próximo. Decidi não ver mais televisão e deletar boa parte dos meus feeds de notícias no Google Reader. Decidi ir a academia malhar, correr, suar e voltar pra casa com aquela camiseta branca molhada, sentindo a endorfina pelo meu corpo. Decidi dormir no domingo, sem me preocupar com a segunda-feira, e a dormir todos os dias sem ter hora pra acordar. Eu precisava fazer tudo isso. Precisava parar e refletir sobre o que fiz e o que quero fazer. Sobre o que fui e o que quero ser.  Aprender a não ter medo de “perder tempo”.  Recomeçar.

Menos

EU SEI


Eu sei que não era pra eu ser assim
que eu devia tomar as doses nas horas certas
Eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
e que eu devia fumar menos
escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços


e beber menos


e amar menos


eu devia parar


e pensar menos


eu sei que eu devia pensar menos
e falar menos
eu sei que eu devia falar menos
pra viver mais
eu sei que eu devia viver menos


MAS EU NÃO SEI VIVER MENOS

Scenes of “Submarine”, directed by Richard Ayoade. Original Soundtrack composed by Alex Turner, of Arctic Monkeys.

Cenas do filme “O Céu de Suely”, dirigido por Karim Aïnouz.

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